Das tarifas ao potássio: as forças geopolíticas que redesenham o futuro da agricultura brasileira.
O Brasil está no centro das mudanças no comércio agrícola global, incluindo as novas tarifas dos EUA e a crescente influência da China nos riscos geopolíticos que envolvem insumos críticos como o potássio. Para entender como essas forças estão remodelando o setor agrícola brasileiro, a estratégia de fertilizantes no país e a segurança alimentar a longo prazo, Agronegócio Global (ABG) Conversei com Matt Simpson, CEO da Potássio do Brasil.
Nesta conversa, Simpson discute os efeitos indiretos da tarifa 50% dos EUA sobre as exportações brasileiras, a crescente aproximação comercial do país com a China e o esforço do Brasil para reduzir as importações de fertilizantes.
ABG: Com a implementação da tarifa 50% pelos EUA sobre uma série de produtos agrícolas brasileiros, mesmo que os fertilizantes não estejam incluídos, que tipo de impactos você está observando no setor agrícola brasileiro?
Matt Simpson: Isso provocou uma mudança drástica na forma como o governo brasileiro está respondendo às pressões econômicas.
No início de 2025, o foco estava quase inteiramente nos compromissos ambientais — especialmente com o Brasil sediando a COP30. A mensagem era sobre a redução do desmatamento ilegal, a garantia do fornecimento ético de soja e a aplicação das normas de uso da terra.
Mas, desde o anúncio das tarifas, as prioridades se ampliaram. O governo agora discute seriamente como apoiar os agricultores e as empresas afetadas pelas tarifas. Está em discussão um pacote de apoio de aproximadamente 40 bilhões de reais — cerca de 1,4 a 7 bilhões de dólares — destinado a setores afetados, como o de café e o de pecuária.
Algumas grandes empresas, como a JBS, têm operações diversificadas nos EUA, mas os produtores menores estão muito mais expostos. Globalmente, os preços das commodities dispararam, adicionando mais uma camada de volatilidade.
ABG: Com as tarifas em vigor, você vê o Brasil acelerando seu realinhamento comercial em direção à China?
EM: Com certeza. O Brasil é o maior exportador de produtos agrícolas para a China há anos, enquanto os EUA geralmente ficam em terceiro lugar.
Mas, desde a implementação dessas tarifas, temos visto uma mudança drástica. O Brasil entrou em cena para suprir a demanda por soja quase que imediatamente.
O Brasil está numa posição privilegiada para expandir seu papel na agricultura global, graças às suas vastas reservas de terras aráveis, à maior oferta de água doce do mundo e a um clima que permite até três ciclos de cultivo por ano.
Sim, as tarifas aceleraram a aproximação do Brasil com a China, porque o Brasil consegue substituir os volumes dos EUA em grande escala.
ABG: Tem havido muita atenção voltada para os países que continuam negociando com a Rússia. O Brasil corre o risco de sofrer sanções da OTAN ou de outras entidades?
EM: Que eu saiba, não, pelo menos não diretamente. Fala-se muito sobre compras de petróleo, e vimos a Índia ser atingida por sanções adicionais, mas o verdadeiro risco geopolítico não é o petróleo — é o fertilizante.
Globalmente, a produção de potássio é dominada por apenas alguns países. O Canadá continua sendo o maior fornecedor, seguido de perto pela Rússia e Bielorrússia. Juntas, essas três nações controlam aproximadamente 801.030 toneladas do suprimento mundial total de potássio, criando uma das cadeias de suprimento de fertilizantes mais concentradas em toda a agricultura.
Países como os EUA importam 951 toneladas de potássio (TP3T). O Brasil importa 981 toneladas de potássio (TP3T). Em ambos os casos, o Canadá é o principal fornecedor, mas a Rússia e a Bielorrússia vêm a seguir. Se o potássio fosse alvo de sanções, o impacto sobre os agricultores brasileiros e americanos seria devastador, e o mundo simplesmente não consegue aumentar a capacidade de produção canadense com rapidez suficiente para suprir essa demanda.
É por isso que projetos como o Brazil Potash são tão importantes: eles criam uma quarta grande fonte de potássio em uma região geopoliticamente estável.
ABG: O Brasil anunciou um plano importante para reduzir as importações de fertilizantes após a invasão da Ucrânia. Como está o andamento dessa estratégia?
EMO ponto de virada ocorreu em 2021-2022. Quando os EUA sancionaram Belarus em meados de 2021, os preços da potassa saltaram de cerca de 1.300 para 1.600 toneladas por tonelada. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, os preços dobraram novamente, chegando a aproximadamente 1.200 toneladas por tonelada. Poucas semanas depois, o Brasil lançou seu Plano Nacional de Fertilizantes — uma estratégia ambiciosa para reduzir a dependência do país em relação à importação de fertilizantes de 851 toneladas para 451 toneladas até 2050.
Desde então, o governo começou a reformular o setor em várias frentes. Eliminou o imposto interestadual sobre fertilizantes — que antes representava um custo de 8,41 trilhões de rupias — e introduziu novas tarifas de importação que estão aumentando gradualmente de zero para 41 trilhões de rupias ao longo de quatro anos. O governo também está investindo fortemente na capacitação de agricultores, enviando equipes de economistas por todo o país para treinar os produtores em manejo ideal de nutrientes. E, com a potassa agora classificada como mineral crítico, o Brasil está oferecendo maior apoio à produção nacional, incluindo discussões sobre financiamento para projetos como o nosso.
O Brasil importa cerca de 1,26 bilhão de dólares em fertilizantes por ano — de quatro a seis vezes mais do que a maioria dos países. Reduzir essa dependência não é mais apenas uma meta econômica; é uma prioridade nacional.
ABG: Falando em produção nacional, quais são as últimas novidades sobre... Projeto de Potássio Autazes E o seu cronograma de construção?
EM: Já iniciamos os trabalhos preliminares no local: limpeza da vegetação e nivelamento do terreno.
No âmbito comercial, assinamos recentemente um segundo contrato de fornecimento com KeyTrade, uma importante empresa comercial suíça. Um terceiro acordo é esperado em breve.
A infraestrutura também está avançando.
Firmamos um memorando de entendimento com a Vittor para a construção de uma linha de transmissão de energia de 160 quilômetros (100 milhas), um investimento de 1.040.200 milhões de dólares que eles financiarão, operarão e nos transferirão de volta após 25 anos.
Estão em curso negociações com parceiros para acordos semelhantes para o nosso porto, central a vapor e instalações de energia de reserva.
Também estamos trabalhando com o governo brasileiro em isenções de impostos de importação para equipamentos.
Resumindo: Sim, o projeto está avançando — e avançando rapidamente.
ABG: O Brasil também está desenvolvendo vários projetos de fertilizantes no país. Como eles se encaixam na estratégia mais ampla?
EM: Sim, o governo identificou vários projetos para diversificar o fornecimento. Não posso falar sobre o andamento de todos eles, mas posso afirmar que o Brasil precisa de múltiplas novas fontes de fertilizantes — e não apenas uma — se quiser reduzir significativamente a dependência de importações. Nossa bacia hidrográfica, por si só, é grande o suficiente para um desenvolvimento multigeneracional. Estamos começando com 2,4 milhões de toneladas, mas com o tempo, poderíamos dobrar, triplicar ou até quadruplicar a produção.
Essa escala é essencial para reduzir a dependência de fornecedores politicamente sensíveis.
ABG: Alguma consideração final sobre como o Brasil deve lidar com o atual cenário geopolítico e comercial?
EM: Não se trata apenas de fornecer potássio ao Brasil. Trata-se de dar ao mundo uma quarta fonte estável de abastecimento.
Sejam tarifas, sanções, greves portuárias ou interrupções ferroviárias, os agricultores precisam de segurança. O fortalecimento da produção de potássio no Brasil beneficia não apenas os produtores brasileiros, mas também, potencialmente, os agricultores da América do Norte. Trata-se de resiliência em um sistema global vulnerável.