As principais empresas globais de proteção de cultivos enfrentam riscos divergentes em 2026 e além.
Enquanto a agricultura global enfrenta incertezas econômicas, instabilidade geopolítica e mudanças na dinâmica de oferta e demanda, três países continuam a desempenhar papéis preponderantes no mercado de proteção de cultivos: Brasil, Rússia e China. Cada um deles permanece crucial para a produção agrícola global e o fornecimento de insumos, mas cada um enfrenta desafios distintos que podem moldar a trajetória do setor nos próximos anos.
Esses desafios estiveram em foco durante um episódio recente do Relatório Global de Agronegócios, com a participação de Bob Trogele, CEO da ProAgInvest. Com base em décadas de experiência em financiamento e investimento agrícola, Trogele ofereceu uma avaliação franca do que está por vir para essas potências globais — e o que isso significa para fornecedores, investidores e líderes do agronegócio em todo o mundo.
Brasil: Estresse de crédito encontra incerteza política
O status do Brasil como potência agrícola é indiscutível, mas Trogele alertou que o estresse financeiro está testando a resiliência de toda a cadeia de valor. “A questão fundamental era por quanto tempo o setor de fornecedores — fornecedores de insumos químicos, nutricionais, de sementes, de equipamentos e o setor financeiro — conseguiria continuar apoiando a agricultura brasileira”, afirmou.
Durante anos, os fornecedores ofereceram prazos de crédito generosos para manter o fluxo de produtos, em alguns casos elevando o prazo médio de giro para mais de 300 dias. Segundo Trogele, esse modelo chegou ao seu limite. “O produto não chegou ao mercado, ou o serviço não chegou, e depois voltou. Isso causou grandes transtornos financeiros para algumas das empresas que eram fornecedoras no Brasil”, explicou.
A alta inflação e as taxas de juros exorbitantes agravaram o problema, levando à falência de produtores rurais, varejistas e distribuidores. "O dinheiro está muito caro no Brasil agora, e eles têm problemas de crédito", disse Trogele. Embora o governo brasileiro tenha tomado medidas para criar mecanismos financeiros que reduzam a dependência de fornecedores privados, o caminho a seguir permanece incerto.
A instabilidade política complica ainda mais o cenário. Com cerca de 301.030 trilhões de dólares do PIB brasileiro atrelados à agricultura, Trogele enfatizou que “tanto a instabilidade política quanto o risco de crédito no Brasil devem ser prioridades para qualquer investidor que pretenda entrar no país”, incluindo empresas do agronegócio que atuam no território. Por ora, os desafios do Brasil são imediatos — e inevitáveis.
Rússia: Guerra, desgaste e uma questão em aberto
O futuro agrícola da Rússia está profundamente interligado com a guerra em curso na Ucrânia. Trogele observou que a economia do país se voltou para a produção militar, enquanto suas fontes de receita tradicionais enfrentam pressão. "Eles têm tido problemas com sua principal fonte de renda, o petróleo, e os europeus estão se afastando deles", disse ele.
Ele acrescentou que a guerra traz destruição inevitável. "Qualquer guerra causa muito desgaste — tanto em termos humanos quanto de capital. Vidas são destruídas, famílias são destruídas, equipamentos e edifícios são destruídos." Embora a Rússia historicamente tenha sofrido esse tipo de desgaste, o impacto a longo prazo na agricultura e nos investimentos permanece incerto.
Quando o conflito começou, muitos investidores e fornecedores agrícolas saíram do mercado. A questão crucial agora, disse Trogele, é se eles retornarão. “Do ponto de vista da indústria agrícola e da indústria de fornecedores, as empresas voltarão? Essa não é uma pergunta fácil de responder”, observou. Muito depende de como o conflito evolui e se a estabilidade econômica poderá ser restaurada.
China: Excesso de capacidade por trás da cortina
A China continua sendo um pilar da indústria global de proteção de cultivos, tanto como fornecedora quanto como cliente. Trogele reconheceu o sucesso do país em áreas como a independência energética, chamando seu progresso de "um trabalho extraordinário", mas logo apontou as contrapartidas. "Isso teve um preço", disse ele, citando a poluição das usinas de carvão e o enorme investimento excessivo em capacidade industrial.
No setor de agroquímicos, esse excesso de investimento teve repercussões globais. "Há mais oferta do que demanda em nível global", disse Trogele. "Os preços caíram drasticamente e as margens foram reduzidas em todo o mundo no setor químico."“
A situação econômica mais ampla da China também gera preocupações. "Eles ainda estão operando com base em uma economia de investimento — construindo coisas — em vez de uma economia de consumo", disse ele. O alto índice de desemprego, um setor da construção civil em dificuldades e tensões geopolíticas aumentam a incerteza.
Apesar das exportações recordes, Trogele alertou que o sucesso superficial mascara problemas mais profundos. “Eles precisam de uma economia doméstica forte, e não a têm. Se olharmos por trás da cortina, as coisas não estão bem na China”, disse ele. Dada a dependência da agricultura global em relação à China, a estabilidade naquele país não é opcional — é essencial.
Um ato de equilíbrio global
Em conjunto, as perspectivas para o Brasil, a Rússia e a China ressaltam a complexidade que o setor global de proteção de cultivos enfrenta. Risco de crédito, instabilidade política, guerras e desequilíbrios econômicos estruturais estão forçando as empresas a repensarem suas estratégias e sua exposição a esses fatores.
Como Trogele deixou claro durante sua aparição no ARelatório Global de Negócios GriBusiness, Esses mercados continuam sendo indispensáveis, mas navegar por eles exigirá cautela, adaptabilidade e uma visão realista dos riscos.
Para ouvir a análise e as ideias completas de Bob Trogele, assista ao episódio completo do Relatório Global de Agronegócios apresentando sua entrevista.