Fertilizante fabricado no Brasil
O Brasil aprendeu nos últimos três anos que terceirizar a produção de fertilizantes pode ser um negócio arriscado. Com a importação de 851.030 toneladas de fertilizantes, e sendo o quarto maior consumidor mundial, o país se viu em uma situação delicada durante as interrupções na cadeia de suprimentos causadas pela COVID-19 e pela guerra entre Ucrânia e Rússia, que interrompeu a importação de 251.030 toneladas de fertilizantes da Rússia.
Em uma mudança rápida de rumo, o governo brasileiro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes 2022-2050 para aumentar a produção nacional de fertilizantes de 151 TP3T (2022) para 551 TP3T (2050).
Os objetivos do NFP também incluíam atrair investimentos estrangeiros para ajudar as empresas brasileiras a expandir o setor de fertilizantes e produtos para a saúde vegetal.
Para a Yara Brasil, empresa que lidera cerca de 150 estudos sobre os benefícios do uso de fertilizantes em diferentes culturas agrícolas com instituições, o NFP ainda precisa de alguns ajustes.
“O plano aborda um conjunto de iniciativas voltadas para a transformação da infraestrutura nas próximas décadas, permitindo que o Brasil produza pelo menos metade dos fertilizantes que consome”, afirma Francielle Bertotto, Gerente de Desenvolvimento de Negócios e Sustentabilidade da Yara Brasil. “O lançamento do plano é um bom primeiro passo. Mas, para que se torne realidade, somente um aumento significativo na competitividade da produção nacional, aliado a maior segurança no acesso a matérias-primas a custos competitivos, especialmente gás natural no caso de fertilizantes nitrogenados, e regulamentações tributárias mais estáveis, darão aos investidores a confiança necessária para realizar esses investimentos substanciais.”
São necessários investimentos, visto que os produtores brasileiros continuam aumentando o consumo. Segundo a Associação Nacional de Promoção de Fertilizantes (ANDA), o mercado de fertilizantes deve crescer para 45 milhões de toneladas em 2024, um aumento de 21,3 milhões de toneladas em relação ao ano anterior.
Empresas como Yara e EuroChem estão intensificando seu jogo para atender às necessidades. Em 2022, a EuroChem adquiriu sua primeira operação integrada de mineração de fosfato na região da Serra do Salitre, Minas Gerais. A previsão é que no primeiro trimestre deste ano, a Salitre adicione +1MMT de produção de fertilizantes fosfatados e forneça 15% de todos os fertilizantes fosfatados para o mercado brasileiro.
Gustavo Horbach, chefe da EuroChem para a América do Sul, afirma que a diretriz do governo para remediar a terceirização de fertilizantes é positiva e atende às necessidades dos agricultores brasileiros. “As políticas implementadas pelo Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (CONFERT) ajudarão a reduzir as vulnerabilidades externas e a alta dependência de importações, de 851 mil toneladas para cerca de 501 mil toneladas até 2050, proporcionando, consequentemente, maior segurança de abastecimento aos produtores rurais.”
Maximizando os rendimentos
À medida que as mudanças climáticas trazem temperaturas mais altas, seca e chuvas excessivas, os produtores brasileiros estão buscando fertilizantes e produtos fitossanitários para ajudar as plantações a se tornarem mais resistentes aos estressores abióticos.
Há também uma tendência de produtores usarem práticas de agricultura regenerativa. Empresas multinacionais estão investindo em suportes para produtores adotarem práticas regenerativas, como o investimento de $1,3 bilhão da Nestlé em 2021, bem como compromissos e investimentos da Pepsico, Starbucks e General Mills.
“Agricultores no Brasil e no mundo estão cada vez mais buscando insumos de alta tecnologia que forneçam nutrientes essenciais para as plantas e tenham baixa emissão de gases de efeito estufa”, diz Bertotto. “Eles visam contribuir para o desenvolvimento da agricultura regenerativa, que vai além da mera proteção do meio ambiente para restaurar suas características naturais. Além disso, há um interesse crescente em soluções com efeitos preditivos relacionados a eventos climáticos extremos, como o El Niño. Nesse sentido, o uso de produtos biológicos está ganhando popularidade entre os agricultores.”
Não está apenas enfrentando a mudança climática, mas também aumentando os rendimentos para um mundo que precisa da produção do país. “O Brasil é o terceiro maior exportador de produtos agrícolas depois dos EUA e da UE, produzindo alimentos anualmente suficientes para alimentar 800 milhões de pessoas”, diz Horbach.
“A tendência na indústria continua sendo para produtos que maximizem os rendimentos, enquanto minimizam nosso impacto ambiental”, Horbach continua. “Por exemplo, produtos que aumentam a eficiência do uso de nitrogênio enquanto reduzem as emissões de gases de efeito estufa, e solúveis em água que permitem microaplicação é onde vimos o crescimento da demanda de 10% ano após ano.”
Iniciativas Governamentais
Em termos de regulamentação, o governo brasileiro está trabalhando para agilizar o processo de fertilizantes, com ressalvas para produtos fitossanitários.
Viviane Kunisawa, sócia da Daniel Law no Brasil, diz: “O Brasil depende muito da importação de fertilizantes e seu registro é um requisito para comercialização e uso. No entanto, para ter mais eficiência, o Ministério da Agricultura implementou um sistema de registro automático, que não isenta os produtos de cumprir padrões de composição e qualidade de acordo com a legislação – requisitos que são sujeitos a fiscalização. Os bioestimulantes, via de regra, têm que demonstrar bioatividade e, consequentemente, não têm direito ao sistema de registro automático.”
Além de agilizar o processo regulatório, políticas públicas estão ajudando a construir a infraestrutura para aumentar a produção de fertilizantes, como o Fertilizer Industry Development Program (Profert), que também é projetado para auxiliar no acesso a matérias-primas, bem como no desenvolvimento de negócios. Há também uma necessidade de suporte aos produtores.
“A solução para os desafios que a sociedade e o planeta enfrentarão nos próximos anos passa por uma agricultura mais produtiva e sustentável, em que os agricultores sejam recompensados não só pela quantidade que produzem, mas também pela forma como produzem”, afirma Bertotto. “Este cenário tem sido crucial para mudanças significativas na cadeia de valor alimentar, em que as práticas mais sustentáveis serão recompensadas, criando um ciclo positivo e duradouro.”.