Especialistas em produtos biológicos abordam subcategorias, desafios remanescentes e muito mais.
Em um recente Webinar AgriBusiness Global AO VIVO!, Especialistas em produtos biológicos analisaram em detalhes o que impulsiona o valor de mercado, os prós e os contras das parcerias e como as empresas de produtos biológicos podem se posicionar para ter sucesso.
Entre os participantes do painel estava Sebastian Bachem, CEO da Accumont; José Nolasco, Chefe de P&D Global de Bionutrição, Rovensa Próximo; Kevin Price, Diretor de Assuntos Corporativos, Certis Belchim; e Ignacio Moyano Córdoba, Vice-Presidente de Desenvolvimento de Negócios, LATAM para DunhamTrimmer LLC.
Na sessão de perguntas e respostas, os painelistas responderam às dúvidas dos participantes sobre as subcategorias de produtos biológicos, as barreiras que ainda impedem a integração e outros temas.
P: Em produtos à base de micróbios, como Tricoderma, Beauveria E outros gêneros, você observa alguma comoditização, semelhante à de produtos químicos genéricos? Se sim, como você acha que as empresas de produtos biológicos podem proteger a propriedade intelectual e a consequente captura de valor, visto que os microrganismos, como a IA, não podem ser patenteados?
Bachem: Embora existam muitas cepas diferentes, há um certo grau de comoditização. A melhor maneira de proteger a propriedade intelectual é desenvolver formulações excelentes que agreguem valor, melhorando o desempenho do produto, a facilidade de manuseio, a estabilidade de armazenamento, etc.
Nolasco: Certamente existe um certo grau de mercantilização em produtos à base de microrganismos, particularmente em gêneros bem estabelecidos como... Tricoderma, Beauveria, e amplamente utilizado Bacilo espécies. À medida que esses ingredientes ativos se tornam padronizados e mais amplamente disponíveis, a diferenciação baseada exclusivamente na cepa tende a diminuir, levando a uma pressão sobre os preços semelhante à que ocorre há muito tempo com os produtos químicos genéricos.
Contudo, em produtos biológicos, o valor raramente reside exclusivamente no próprio microrganismo. Embora os microrganismos em si geralmente não sejam patenteáveis, a captura e a proteção de valor são alcançadas por meio de outros elementos-chave, incluindo processos proprietários de seleção de cepas, conhecimento sobre fermentação e ampliação de escala, tecnologias de formulação que garantem estabilidade e consistência no campo e um posicionamento agronômico claramente definido.
Nesse contexto, a geração de dados robustos e reproduzíveis desempenha um papel central. Produtos respaldados por sólidos ensaios de campo, padrões de uso bem definidos e benefícios agronômicos claramente demonstrados tendem a alcançar uma diferenciação mais sustentável, mesmo em mercados onde organismos semelhantes estão presentes.
Como resultado, a propriedade intelectual e a criação de valor em produtos biológicos estão cada vez mais se afastando do próprio organismo e se voltando para sistemas de desempenho, execução e conhecimento aplicado, em vez da capacidade de patentear o microrganismo.
P: Como encontrar foco/nichos no grande mercado de culturas agrícolas?
Nolasco: Nos grandes mercados de culturas agrícolas, o foco normalmente não está na cultura em si, mas no problema agronômico específico que se pretende solucionar. Em mercados amplos e consolidados, a diferenciação é alcançada pela identificação de nichos definidos por estágios críticos da cultura, condições específicas do solo ou de estresse, práticas agronômicas específicas e restrições regulatórias.
É possível capturar valor mesmo em mercados altamente competitivos, concentrando o desenvolvimento e o posicionamento em casos de uso muito claros. Nesse contexto, a mensagem principal é que o nicho é definido pela necessidade agronômica, e não pela área total cultivada.
Bachem: O acesso ao mercado de culturas agrícolas orgânicas será feito por meio de preços competitivos e casos claros de benefícios. Este é um processo mais lento e complexo, mas será impulsionado pelo princípio de priorizar os biológicos e utilizar os químicos apenas em casos de emergência. Isso precisa ser acompanhado por ferramentas de suporte digital (detecção e aplicação de precisão), maior resistência varietal e melhores técnicas de manejo do solo.
P: Considerando a ampla gama de produtos biológicos, como se assemelham as subcategorias, como os bioestimulantes? Qual segmento do mercado de biológicos apresentará o maior crescimento?
Nolasco: Os bioestimulantes representam atualmente um dos segmentos de crescimento mais rápido no mercado de produtos biológicos. No entanto, as restrições regulatórias estão se tornando cada vez mais o principal fator limitante, o que significa que o crescimento contínuo dependerá em grande parte de mudanças regulatórias, estruturas de alegações mais claras e maior harmonização entre os principais mercados.
Em paralelo, as soluções microbianas voltadas para o aumento da produtividade, associadas à eficiência no uso de nutrientes e à mitigação do estresse, estão ganhando impulso. Embora historicamente esse segmento tenha crescido a um ritmo mais moderado, ele é cada vez mais considerado defensável e estrategicamente bem posicionado. Fatores estruturais, como a redução obrigatória do uso de fertilizantes, iniciativas de sustentabilidade e o aumento dos preços dos fertilizantes, ligado a tensões geopolíticas, estão acelerando a adoção dessas soluções. Como resultado, espera-se um dos maiores crescimentos em bioestimulantes e soluções biológicas que possam comprovadamente reduzir o uso de fertilizantes, melhorar a eficiência na absorção de nutrientes e ajudar a compensar a disponibilidade restrita de nutrientes nas atuais condições agronômicas e regulatórias.
Bachem: O acesso ao mercado de culturas agrícolas orgânicas será feito por meio de preços competitivos e justificativas claras de benefícios. Este é um processo mais lento e complexo, mas será impulsionado pelo princípio de "biológicos em primeiro lugar, químicos apenas em caso de emergência". Isso precisa ser acompanhado por ferramentas de suporte digital (detecção precisa, aplicação), resistência varietal aprimorada e melhores técnicas de manejo do solo.
P: Em termos de princípios ativos microbiológicos, quais são os maiores desafios restantes para os princípios ativos formadores de esporos já estabelecidos e para as espécies Gram-negativas emergentes? Qual a sua visão sobre o futuro dessas duas categorias de princípios ativos?
Nolasco: Os principais obstáculos científicos para ingredientes ativos formadores de esporos já estabelecidos, como Bacilo A questão central no desenvolvimento de novas espécies não é mais se elas conseguem sobreviver, mas sim o quão consistentemente elas se comportam em sistemas agrícolas reais. Os esporos conferem a esses produtos uma clara vantagem em termos de estabilidade de armazenamento e robustez no transporte, mas a eficácia em campo ainda depende da aplicação da dose correta, no momento certo e no microambiente adequado. A variabilidade entre solos, climas e sistemas de cultivo continua sendo um desafio, assim como a compatibilidade com práticas agronômicas padrão, como tratamento de sementes, pesticidas e fertilizantes. Na prática, mesmo esporos biologicamente resistentes podem apresentar desempenho inferior se a formulação, o local de aplicação e as coaplicações químicas não forem cuidadosamente gerenciadas.
Os desafios são mais complexos para as bactérias Gram-negativas emergentes, incluindo Azospirillum, Azotobacter, Rhizobia, e Pseudomonas. Esses organismos possuem atividade biológica robusta e interações complexas com plantas, mas são muito mais sensíveis à desidratação, ao calor e a longos períodos de armazenamento. Prazo de validade, estabilidade da formulação, controle de qualidade e compatibilidade com insumos químicos ainda representam grandes obstáculos à adoção em larga escala. O rigor regulatório também é maior para certos táxons em alguns países, o que aumenta ainda mais a complexidade da comercialização.
A compatibilidade com insumos convencionais é um desafio comum a esses dois tipos de ingredientes ativos, embora seja particularmente crítica para bactérias Gram-negativas. Misturas em tanque, qualidade da água, pH e aplicação conjunta com agroquímicos podem afetar a sobrevivência e a atividade celular. Embora isso seja amplamente reconhecido na agronomia, a dimensão microbiana adiciona sensibilidade biológica às restrições de compatibilidade física e química, reforçando a necessidade de soluções orientadas pela formulação, em vez de recomendações pontuais.
O futuro dos ingredientes ativos formadores de esporos reside no aprimoramento, e não na disrupção. É provável que esses organismos sejam a base de muitos portfólios microbianos, com a inovação focada em formulações mais inteligentes, maior consistência e melhor integração às práticas agrícolas. Avanços incrementais em veículos, adjuvantes e tecnologias de administração ainda podem gerar ganhos significativos em desempenho e confiabilidade.
O futuro reserva transformações significativas para as bactérias Gram-negativas. O consenso científico aponta para avanços em tecnologias de formulação, incluindo encapsulamento, polímeros protetores e engenharia de microambientes por meio do uso de prebióticos, como os principais facilitadores para uma adoção mais ampla. Essas tecnologias visam proteger células sensíveis durante o armazenamento e a aplicação, liberando-as de forma eficaz na rizosfera, onde seu valor biológico é máximo.
É provável que as abordagens híbridas também apresentem avanços significativos, incluindo consórcios microbianos, estratégias aprimoradas de co-cultivo e até mesmo soluções acelulares ou baseadas em metabólitos, para complementar ou, em alguns casos, contornar as rígidas restrições de viabilidade das células vivas. Em conjunto, esses desenvolvimentos apontam para um futuro em que a ciência de formulação robusta conecta o potencial biológico às práticas agrícolas do mundo real.
P: Que nível de desenvolvimento técnico e de vendas cria uma base para ser considerado?
Nolasco: Uma base sólida para a adoção de biossoluções microbianas começa com a gestão do conhecimento e a educação continuada, tanto nas equipes de vendas quanto entre os produtores. Os produtos microbianos exigem uma mentalidade diferente da dos insumos químicos convencionais, e esclarecer tanto seus benefícios quanto suas limitações é essencial para construir confiança e garantir o sucesso a longo prazo.
Alinhar as expectativas é fundamental. As biossoluções microbianas podem proporcionar resultados valiosos e, por vezes, inesperados, frequentemente aumentando a produtividade basal das culturas e melhorando a eficiência dos nutrientes. No entanto, elas não se comportam como os produtos químicos tradicionais e não devem ser consideradas como substitutas diretas destes. Seu desempenho depende do manuseio correto, do momento preciso da aplicação e de práticas agronômicas adequadas que preservem a viabilidade dos microrganismos vivos e maximizem sua atividade na rizosfera.
Por isso, as equipes de vendas e técnicas precisam ter um conhecimento profundo dos modos de ação, das diferenças de formulação e das condições práticas de uso. Esse conhecimento é essencial não só para o posicionamento correto, mas também para orientar os produtores sobre como integrar esses produtos aos sistemas de produção existentes sem comprometer seu desempenho.
É importante reconhecer que nem todos os produtos biológicos são iguais. A qualidade do produto, determinada pela seleção da cepa microbiana, pelos processos de produção e pela tecnologia de formulação, tem um impacto significativo no desempenho em campo. Mesmo produtos baseados no mesmo ingrediente ativo microbiano podem apresentar resultados muito diferentes, dependendo da qualidade. Portanto, tanto os produtores quanto as equipes de vendas devem ser capacitados para reconhecer o valor de formulações de alta qualidade e aplicar práticas agronômicas que explorem todo o seu potencial. Essa combinação de capacitação, suporte técnico e consciência da qualidade é o que, em última análise, possibilita resultados consistentes e confiáveis no campo.
Bachem: O conhecimento local, aliado à gestão adequada até o nível da fazenda e a parceiros de distribuição especializados, provavelmente será a chave para uma maior aceitação e sucesso. A troca de experiências entre os agricultores, em conjunto com aqueles que vivem situações reais, também será fundamental.
P: Os adjuvantes tendem a "combinar" com os pesticidas sintéticos. Você observa o mesmo para os princípios ativos biológicos ou os adjuvantes poderiam ser usados de forma intercambiável entre os princípios ativos biológicos? Quais características seriam necessárias para esses adjuvantes?
Bachem: Sim. O aprimoramento das formulações evoluiu consideravelmente nos últimos cinco a dez anos, e essa tendência continuará.
Nolasco: Tradicionalmente, os adjuvantes têm sido intimamente ligados aos pesticidas sintéticos, onde seu papel é bem definido em relação ao desempenho da pulverização e ao comportamento químico. No entanto, a situação é diferente para os ingredientes ativos biológicos. Em vez de se buscarem combinações diretas, os adjuvantes para produtos biológicos tendem a ser desenvolvidos com base na compatibilidade funcional entre múltiplos ingredientes ativos, em vez de uma estrita vinculação a um produto específico.
Os ingredientes ativos biológicos, particularmente os microbianos, introduzem camadas adicionais de complexidade relacionadas à viabilidade celular, à sensibilidade fisiológica e à estabilidade da formulação. Consequentemente, os adjuvantes utilizados com produtos biológicos precisam ser menos focados na química e mais na biologia. As principais características incluem compatibilidade em uma ampla faixa de pH, baixa toxicidade para organismos vivos, proteção contra fatores de estresse abiótico, como radiação UV e dessecação, além de promover deposição uniforme sem comprometer a viabilidade.
P: Como redes como a de extensão rural, especialistas universitários e agrônomos podem ser melhor aproveitadas?
Nolasco: A principal oportunidade reside em romper as fronteiras tradicionais entre a indústria e a academia. As universidades não devem ser vistas apenas como executoras ou validadoras de testes, mas como parceiras estratégicas integradas ao processo de inovação. Uma colaboração mais estreita, desde a fase de definição do problema, permite que a expertise acadêmica influencie diretamente o design do produto, seu posicionamento e cenários de uso realistas. A lacuna entre a inovação científica e sua aplicabilidade é significativamente reduzida quando os objetivos, incentivos e cronogramas estão melhor alinhados.
A maior oportunidade reside em reformular o papel das universidades e redes de extensão, de executoras de testes a parceiras estratégicas em inovação, posicionamento e adoção. As instituições acadêmicas não devem ser envolvidas apenas para validar produtos após o desenvolvimento, mas sim integradas muito antes no processo. Na Rovensa Next, temos parcerias com 170 universidades e centros de pesquisa.
Em muitos casos, a validação de produtos microbianos em P&D para na fase de ensaio do modo de ação. Embora esses estudos sejam essenciais para entender como um produto funciona, muitas vezes são insuficientes para definir como o produto deve ser usado em sistemas de manejo integrado reais. As universidades atuam na vanguarda da inovação agronômica e estão em uma posição única para introduzir camadas adicionais de complexidade (saúde do solo, fisiologia das culturas, rotações de culturas, estratégias de nutrientes e interações biológico-químicas) que, em última análise, determinam o desempenho no campo.
Os parceiros acadêmicos também desempenham um papel crucial como validadores confiáveis e neutros do posicionamento de produtos microbianos, devido à sua independência. Suas percepções ajudam a refinar as alegações, ajustar as expectativas e contextualizar o desempenho em diferentes regiões e sistemas de produção. Essa validação independente é essencial para construir credibilidade junto aos produtores e evitar a discrepância entre os resultados de laboratório e os resultados na fazenda.
Uma colaboração mais estreita, desde a fase de definição do problema, permite que a experiência acadêmica contribua não apenas para a validação do produto, mas também para as escolhas de formulação, recomendações de uso e integração com práticas modernas, como manejo integrado de nutrientes, manejo de rotação de culturas, sistemas regenerativos e estratégias de otimização de insumos. Quando os objetivos, incentivos e cronogramas estão melhor alinhados entre a indústria e a academia, a lacuna entre a inovação científica e a adoção prática diminui significativamente.
Nesse contexto, os extensionistas rurais e agrônomos se tornam poderosos multiplicadores de impacto. Ao transformar o conhecimento academicamente validado em recomendações adaptadas ao contexto local, eles ajudam a garantir que os bioinsumos microbianos sejam usados de forma correta, consistente e como parte de sistemas agronômicos coerentes, maximizando a produtividade e minimizando a frustração e o uso indevido.
P: A compatibilidade entre pesticidas biológicos e químicos convencionais tende a ser um dos maiores pontos de discussão e dificuldades no campo. Será que a quantidade de pesquisa e desenvolvimento destinada à compatibilidade está sendo suficiente antes do lançamento do produto?
Bachem: Os produtores de sucesso estão adotando uma abordagem de controle biológico em primeiro lugar, recorrendo à química convencional apenas quando absolutamente necessário. Essa prática já ocorre há cerca de 10 anos em culturas de alto valor agregado, mas o conceito está se expandindo para culturas de campo e cereais. Não é uma tarefa fácil e exige muita experimentação nos ambientes locais. A demanda do consumidor e os preços mais altos dos produtos agrícolas são o incentivo (semelhante ao que ocorre com a carne bovina alimentada a pasto). Essa tendência continuará e, com o aumento da escala e do conhecimento, o uso do controle biológico também aumentará, mas provavelmente será um processo lento.